Isto não é um diário

Na sua obra “Isto não é um diário”, Zygmunt Bauman escreve sobre a sua perspectiva acerca dos vários acontecimentos que vai observando, desde Setembro de 2010 até Março de 2011.

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Na minha opinião, o grande objectivo da obra de Bauman é apenas permitir ao próprio (e também aos leitores) pensar.

O próprio afirma “(…) sinto-me incapaz de pensar sem escrever.” E é precisamente o que observamos o autor fazer à medida que escreve, observamos os seus pensamentos sobre vários acontecimentos, permitindo-nos a nós próprios pensar também sobre eles.

Algo que é cada vez mais importante numa época onde o acesso à informação é tão fácil e tão imediato que nos sentimos sobrecarregados pela mesma, focando-nos mais na obtenção constante de nova informação do que na reflexão sobre aquilo que aprendemos.

Nesta obra, Bauman trata temas que faziam parte do espaço público na época e que no entanto continuam a fazer sentido hoje, 5 ou 6 anos depois.

Temas como a perseguição aos ciganos em França, hoje já não tão mediática (talvez devido à sua substituição pelo problema dos refugiados, também tão evidente em França – Bauman cita mesmo: “(…) os acampamentos temporários são um perigo”, fazendo lembrar a contestação que existiu em França relativamente ao acampamento de refugiados em Calais, a chamada “selva”, agora já demolida pelo governo francês).

O próprio Bauman afirma mesmo na sua obra:

Marx disse que a história se tende a repetir (…)”.

bush_trump2-620x412.jpgFala também, na sequência do aniversário do 11 de Setembro, na “superquebra da superpotência” que são os EUA. De como “as nações relutam em aprender, e quando o fazem, é sobretudo a partir dos seus erros e equívocos passados (…)”. Dando como exemplo a 2ª Invasão do Iraque, nomeada na época como uma operação de liberdade e que hoje é vista pela grande maioria dos americanos como um enorme erro. Os mesmos americanos que, no entanto, elegem Donald Trump, cuja política externa e militar se aproximará certamente da de George W. Bush.

 

Mas não é apenas a América que se esquece do passado e parece cometer os mesmos erros de forma cíclica, o mesmo se verifica na Europa, onde há menos de um século vários povos europeus se viraram para o populismo e o extremismo como falsa solução para a crise política e económica que enfrentavam, e hoje parecem voltar a fazê-lo, esquecendo-se das terríveis consequências que existiram no passado.

E a própria migração dos refugiados do Médio Oriente e Norte de África para a Europa fazem lembrar a migração que existiu na Europa após a 2ª Guerra Mundial.

 

Na verdade todo o mundo ocidental se parece esquecer dos erros do passado, e Bauman 20601-champagne-trickle-down-economics.jpgrefere-se a outro tema que pode também servir de exemplo a essa ideia: o crescimento económico (ou a economia em geral). Falando das “mudanças estruturais na economia” que causaram riqueza é verdade, mas concentrando-a praticamente toda nos mais ricos. Uma política económica seguida nomeadamente, outra vez, por George Bush, causando uma enorme perca de empregos nos EUA, revertida pelo Presidente Obama. Uma economia de trickle-down que cada vez mais prova não ser eficiente para os mais pobres e para a classe média, que no entanto vota em Trump, ávido defensor dessa teoria (como é demonstrado pela sua vontade de diminuir drasticamente os impostos para os mais ricos).

 

Bauman escreve também sobre o constante conflicto entre “estabelecidos versus outsiders”, dando novamente o exemplo dos ciganos, novamente repetido hoje com a situação dos refugiados (ainda que neste caso os refugiados são apenas outsiders no sentido que vêm de fora, e não no sentido que se recusam a adaptar-se e integrar-se de acordo com os costumes locais – apesar de essa ser a retórica (falsa) que a extrema direita procura transmitir).

Fala também do desaparecimento da confiança, e de como este causa um desabamento da ordem social, política e económica, outro assunto tão presente nos dias de hoje.

Referindo-se à bolha imobiliária norte-americana, cita Paul Krugman, afirmando que “A raiva está varrendo os Estados Unidos”, consequência da crise e do desemprego e do aparente desaparecimento do sonho americano. Um sonho americano que em parte voltou a existir com a presidência de Obama, pelo menos para alguns segmentos da população.

E este é um assunto que penso também merecer atenção, o facto de Obama ter resolvido em grande parte a crise económica nos EUA, mas se ter esquecido (como a maioria dos líderes europeus), de resolver a crise de representação política. Grandes segmentos das populações (suficientes para vencer eleições e referendos), não se sentem representados pelos actuais líderes políticos, parecem sentir-se esquecidos e saudosos de um tempo (que já pertence ao passado) onde eram considerados importantes.

Durante a sua campanha, Donald Trump falava de um “eleitorado escondido”, algo semelhante a uma “maioria silenciosa”, uma ideia que muitos consideraram falsa, mas que parece realmente ser verdadeira. Estes segmentos das populações que se sentem abandonados pela classe política, habitando regiões mais rurais e industriais (como é possível observar nos mapas de resultados eleitorais americanos e do referendo britânico), que não têm voz na comunicação social ou nas redes sociais, mas que têm voz no voto, e que se fazem ouvir através da eleição de populistas e extremistas que fingem preocupar-se com eles e apresentam falsas soluções aos seus problemas.

 

Quando fala sobre este assunto, referindo-se a Krugman, entitula o “capítulo” como “Sobre o direito de ter raiva”, que lembra também um recente artigo do próprio Krugman, na sua coluna no New York Times, onde este fala de certo modo no direito a ter raiva, neste caso sobre a eleição deTrump:

krugman.jpgA lot of people in politics and the media are scrambling to normalize what just happened to us, saying that it will all be OK and we can work with Trump. No, it won’t, and no, we can’t. The next occupant of the White House will be a pathological liar with a loose grip on reality; he is already surrounding himself with racists, anti-Semites, and conspiracy theorists; his administration will be the most corrupt in America history.”

 

Novamente é interessante observar como Bauman escreve sobre uma América que sofria na época as consequências da administração Bush, a mesma América que no entanto volta a eleger um homem com ideias semelhantes e com ainda maior irresponsabilidade.

Existem ainda vários aspectos na obra de Bauman que permitem uma relação com outros textos lidos anteriormente. A própria ideia da necessidade de pensar e de reflectir, faz lembrar a frase de Daniel Innerarity na obra “O novo espaço público”, onde este afirma que vivemos num mundo onde “A velocidade da informação é paga com a redundância”. Ou na sua referência à ideia de Jerusálem vs Atenas, também abordada por George Steiner na obra “A ideia da Europa”.

Bauman continua a abordar ao longo desta obra vários assuntos que observa no seu dia-a-dia, escrevendo comentários (citando vários autores, como José Saramago) e dando a sua opinião sobre eles. E apesar de muitas das suas opiniões serem interessantes e merecerem atenção por si só, e poderem cada uma dar origem a um post diferente, penso que é importante retirar uma ideia principal desta obra: a importância de pensar, de refletir e de dar a nossa opinião sobre aquilo que vemos ou ouvimos.

Não ceder ao costume que surge cada vez mais com a globalização de consumir informação a “alta velocidade”, não prestando realmente atenção ao que nos é apresentado, e não tirando o tempo para pensar sobre os assuntos, levando muitas vezes a que sejamos de certo modo manipulados pelo modo como a informação nos é apresentada.

E principalmente entender como talvez notícias que nos parecem insignificantes fazem parte de assuntos importantes e de problemas aos quais muitas vezes não prestamos atenção. Como por exemplo a vitória de François Fillon nas primárias da direita francesa, que escolhe assim como seu candidato a Presidente um homem extremamente conservador, para tentar atrair os votos de uma direita que se vira cada vez mais para o partido de Le Pen. Um assunto que por si só não tem muito interesse mas que penso demonstra a mudança no posicionamento político de vários partidos (principalmente o aparente desaparecimento do centro-direita).

Relativamente à afirmação de Steven Poole, “Se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na internet, teria sido o melhor blog do mundo”, ela é realmente verdadeira, visto que Bauman consegue transmitir a sua opinião sobre cada um dos temas que trata, demonstrando ao leitor a sua reflexão sobre os assuntos, e permitindo a este reflectir também.

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