Agenda-Setting na Política (II)

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Há alguns posts atrás, escrevi sobre o conceito de agenda-setting na política, colocando algumas questões sobre a sua existência e o seu funcionamento.

Neste post procurei responder a essas mesmas questões, desenvolvendo o tema com maior detalhe e apresentando mais alguns exemplos que, na minha opinião, demonstram a existência do agenda-setting e nos permitem compreender o modo como este funciona.

Tentando por fim responder à principal questão que coloquei,  se o agenda-setting realmente condiciona o processo de discussão e comunicação na política.

Antes de responder às perguntas, relembro o conceito de agenda-setting, que consiste na capacidade dos órgãos de comunicação social influenciarem a importância ou o destaque de certos assuntos na agenda pública (e neste caso, mais especificamente, na agenda política).

Respondendo assim às questões que coloquei:

Agenda-Setting existe?

Penso que a existência do agenda-setting é inegável. Seja ele intencional ou não (uma questão à qual vou procurar também responder), a verdade é que os assuntos sobre os quais os meios de comunicação social escrevem são os assuntos que dominam o espaço de discussão pública.

Podemos até dizer mesmo que é uma das funções dos meios de comunicação social escrever sobre os assuntos que serão importantes para a população e merecem ser discutidos e analisados por esta.

No entanto surge aqui outra questão, qual é a legitimidade dos meios de comunicação social para determinar os assuntos que merecem fazer parte do espaço público de discussão?

Na minha opinião esta legitimidade não existe,  na prática os meios de comunicação social escrevem sobre os assuntos que vão de encontro aos seus interesses próprios, mas apresentando-os como se fossem de interesse público.

A verdade é que os jornais são instituições privadas e tendo obviamente a liberdade de escrever sobre o que bem entenderem, não se apresentam no entanto com as suas verdadeiras intenções, apresentam-se sim como instituições de serviço público que teriam de ter em mente essa mesma utilidade pública, o que não acontece.

A Intencionalidade do Agenda-Setting

Seguindo esse pensamento, de que os meios de comunicação social não dão primazia ao interesse público, mas sim ao seu interesse privado (que poderá por sua vez representar outro tipo de interesses – outra questão a ser desenvolvida mais à frente), concluo que o processo de agenda-setting só pode ser intencional.

Os jornais e diferentes meios, dão maior destaque a certos tipos de notícias porque sabem que esse destaque irá resultar num processo de agenda-setting (segundo os seus interesses), ou numa situação favorável para o meio (como a publicação de notícias sensacionalistas para maior obtenção de lucros).

Como exemplo temos o destaque inexistente, ou quase, dado por estes 3 jornais (e o correio da manhã) relativamente ao crescimento do PIB português no passado dia 16 de Novembro:
(nota: todas as imagens foram retiradas de publicações por parte da página “Os truques da imprensa portuguesa” no facebook).

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E por vezes publicam certas notícias onde o destaque vai para aquilo que melhor satisfaz os interesses do jornal, manipulando a percepção do que está a ser noticiado.

Como neste caso, onde é noticiado o facto de o Bloco de Esquerda querer rever o texto que formaliza o acordo que sustenta o governo socialista, ao contrário do PCP que não vê vantagens nesta revisão. No entanto o título da notícia procura transmitir a ideia de que o PCP não quer renovar o acordo que suporta o governo liderado por António Costa (quando estava em causa uma reformulação e não uma renovação).

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Mas se o agenda-setting é intencional, é assim necessário compreender a sua razão, é necessário compreender os interesses que os meios de comunicação representam.

Qual é o objectivo do agenda-setting?

A conclusão a que chego é então que o agenda-setting é intencional, e esta intenção é servir de melhor forma os interesses dos meios de comunicação social.

É por isso importante tentar compreender quais são estes interesses.
Poderão ser vários, como:

  • A procura de mais lucro, recorrendo à publicação de títulos sensacionalistas (como vemos em publicações como o Correio da Manhã), quebrando o próprio código deontológico dos jornalistas, que logo nos seus primeiros dois artigos afirma:

“1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.

2. O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.”

(O Correio da Manhã é perito em noticiar “factos” não comprovados e em formular acusações sem qualquer prova – como exemplo temos a notícia de que o Administrador do Grupo Lena teria confessado ter corrompido o antigo Primeiro-Ministro José Sócrates, algo imediatamente desmentido pelo mesmo, forçando o Correio da Manhã a publicar uma rectificação e um pedido de desculpas – praticamente sem qualquer destaque -).

  • O próprio interesse editorial do jornal, os indivíduos responsáveis por um meio de comunicação social podem ter uma determinada ideologia ou proximidade com algum partido, e fazer reflectir essa proximidade ideológica na maneira como tratam (ou não tratam) certas notícias.

Por exemplo, o jornal online Observador, um meio de comunicação de orientação política conservadora, ou de “direita”, noticia de modo claramente tendencioso a aprovação do Orçamento de Estado de 2017 por parte da União Europeia:

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E aqui repito o que escrevi anteriormente, não vejo qualquer problema nos jornais seguirem uma certa orientação política, ou serem mais tendenciosos acerca de certos partidos, mas essa tendência tem de ser assumida, e não podem mascarar algo que quase se aproxima de propaganda política como serviço público de informação.

Neste aspecto, os meios de comunicação norte-americanos e britânicos dão um exemplo a ser seguido, no decorrer de eleições assumem o candidato ou partido que apoiam, para que os seus leitores possam ter essa tendência em conta quando lêem o que é noticiado pelo jornal.

  • O interesse do grupo económico proprietário do meio: Salvo erro, todos os meios de comunicação portugueses fazem parte de um grupo económico (o jornal desportivo A Bola era o único que continuava “independente” e mesmo esse foi recentemente adquirido).

Por exemplo: o ExpressoVisãoSIC, Caras fazem parte do grupo Impresa, a TVI, Rádio Comercial, M80, fazem parte do Grupo MediaCapital, o Correio da Manhã, Record, Destak, Metro e Jornal de Negócios fazem parte do Grupo Cofina, o Público pertence ao Grupo Sonae, etc.

Por isso o modo de tratar a informação de estes meios de comunicação social pode tentar ir de encontro aos interesses destes grupos económicos.

E aqui devemos também fazer uma relação entre os interesses dos grupos económicos e os interesses partidários, visto que muitas vezes estes coincidem.

O maior exemplo disso são os meios de comunicação do Grupo Impresa, cujo fundador é Francisco Pinto Balsemão, também fundador do Partido Social Democrata. Que tratam a informação de modo claramente tendencioso.

E não apenas favorecendo o PSD (ou a direita) em detrimento do PS (ou da esquerda), mas mesmo fazendo valer a posição política de Balsemão dentro do próprio PSD – numa altura em que Rui Rio (possível candidato em relação ao qual Balsemão já anunciou o seu apoio em vários casos) anuncia a sua disponibilidade para concorrer à liderança do partido, praticamente todos os comentadores da SIC/Expresso começam a criticar a capacidade de Passos Coelho enquanto líder da oposição, tentando manipular a opinião pública em função dos interesses (neste caso políticos) do seu proprietário.

Como evidencia esta notícia da Visão, no passado dia 17 de Novembro:

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Agenda-Setting forma opiniões ou determina apenas aquilo que é discutido?

Concluindo que o agenda-setting existe, é intencional, e que procura servir os interesses representados pelos meios de comunicação social, devemos questionar-nos se este apenas determina os temas que são discutidos no espaço público (ou seja o que é visto como “importante”), ou se consegue mesmo formular e manipular a opinião dos leitores / espectadores.

Esta questão é difícil de responder, porque dependerá de cada pessoa se se deixa influenciar pela maneira como os meios de comunicação apresentam a informação.

Na minha opinião sim, os meios de comunicação social conseguem realmente formular e manipular a  opinião pública. Isto porque logo ao determinarem os assuntos que têm espaço de destaque na agenda pública, estão a manipular a opinião pública.

Por exemplo, o facto de o Correio da Manhã noticiar na sua capa que “O Fisco «saca» 500M de IMI” e não dar qualquer destaque ao crescimento do PIB português, cria imediatamente uma ideia negativa acerca do Governo.

A manipulação da opinião dos leitores existe na própria selecção das notícias que são tratadas, nas que são ignoradas, no tipo de destaque que é dado, e na perspectiva, ou falta de contexto que caracteriza o modo como a informação é por vezes tratada.

E por fim chego à última questão a que procuro responder:

agenda-setting condiciona também a discussão política?

Penso assim ser evidente que o agenda-setting condiciona a discussão no espaço público, mas penso também ser importante compreender se este também condiciona a discussão no espaço político (ou seja, a discussão entre os vários órgãos de poder político – governo, partidos, etc.)

No primeiro post que escrevi sobre este assunto mencionei o caso do famoso imposto sobre o património imobiliário. Existiu uma grande discussão acerca deste imposto após as declarações da deputado do BE, Mariana Mortágua, que se referiu ao mesmo após a publicação de uma notícia sobre o mesmo por parte do Jornal de Negócios.

Ou seja, neste caso, foi a publicação de uma notícia que desencadeou o processo que levou este assunto a ocupar o espaço de discussão política, dando origem a críticas por parte da oposição, ou de apoios por parte dos partidos à esquerda.

Este caso não é único, são muitas as situações onde os meios de comunicação social procuram determinar os temas de discussão política, dando-lhes tanta importância na comunicação social que obrigam as instituições de poder político a pronunciar-se e a assumir uma posição.

E não só, procuram também influenciar a opinião dos leitores acerca destes temas, como se vê na diferença de destaque dado pelo Público aquando das manifestações a favor e contra do financiamento do Estado a colégios privados em áreas onde existe oferta pública (procurando novamente defender os interesses dos próprios em vez de privilegiar o tratamento imparcial da informação):

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Outro exemplo é o caso da Caixa Geral de Depósitos, onde recentemente aconteceram duas coisas:

  1. O Governo conseguiu, contra todas as expectativas, assegurar uma recapitalização doimage_preview.jpg banco, a ser realizada pelo próprio Governo, sem que esta fosse considerada uma intervenção estatal, não sendo assim contabilizada para o défice – algo positivo e notório (até reconhecido por membros da oposição como António Lobo Xavier).
  2. Existiu uma situação onde o novo administrador não quis entregar a sua declaração de rendimentos, pedindo um parecer a
    o Tribunal Constitucional sobre a obrigatoriedade desta entrega.

Ora o primeiro passou praticamente despercebido, porque sendo algo positivo, e principalmente positivo para o governo de esquerda, não existiu qualquer interesse dos meios de comunicação social em dar destaque ao assunto, para que este não fosse discutido no espaço político.

O segundo, sendo algo negativo tem imediatamente mais destaque por parte dos meios de comunicação social, dando um crescente destaque a um assunto que é, discutivelmente, sem qualquer interesse público, criando uma percepção de instabilidade em torno da Caixa Geral de Depósitos.

Uma situação que só pode existir por uma de duas razões: ou os meios de comunicação social preferem dar destaque ao negativo porque este vende mais que o positivo, ou a maioria dos meios de comunicação social tem uma tendência ideológica de direita, não querendo dar destaque a qualquer resultado positivo por parte do governo de António Costa (na minha opinião serão as duas).

A página “Os truques da imprensa portuguesa”, à qual me referi anteriormente, descreve esta situação de forma excelente:

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No entanto, seja qual for a razão, penso ser indiscutível que os meios de comunicação social, através do agenda-setting condicionam o processo de discussão e comunicação política (e mesmo de acção política).

Porque ao darem destaque a certos assuntos que consideram “polémicos” (seja porque razão for), manipulam a opinião pública de uma maneira que obriga as instituições políticas a pronunciarem-se sobre esses assuntos, e por vezes mesmo a agirem sobre eles.

Um exemplo dessa acção causada pelo agenda-setting dos meios de comunicação social é a aprovação, em Conselho de Ministros, de um código de conduta para Ministros e Secretários de Estado, decorrente da “polémica” acerca da viagem do Secretário de Estado das Finanças paga pela GALP, um assunto que deve o seu destaque aos meios de comunicação social (que talvez por lapso se concentraram neste caso ignorando casos semelhantes como a viagem da líder do CDS, Assunção Cristas, paga pela Federação Portuguesa de Futebol).

Em conclusão

Podemos discutir as razões do mesmo, mas penso ser evidente que o agenda-setting existe, que este é intencional, que tem como objectivo servir os interesses representados pelos meios de comunicação social, que influencia não só o que é discutido mas também o que é pensado, e principalmente que a sua influência não se limita apenas ao espaço de discussão público mas também à influência no espaço de discussão, comunicação e acção política.

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