A importância da Nobreza de Espírito

Nos últimos posts abordei a importância da cultura no projecto europeu e da importância da dimensão cidadã das organizações, de como esta falta de preocupação com a cultura, de como a falta de intervenção politica das organizações, e de como a fixação nos aspectos financeiros, que é comum aos dois casos, prejudica a sociedade.

Neste post volto a referir, baseando-me na leitura da obra de Rob Riemen, de algo que prejudica o funcionamento da nossa sociedade, o desenvolvimento da nossa cultura e a conservação do mundo civilizado e do ideal de civilização ocidental (ou europeia). A falta de Nobreza de Espírito (um ideal, que segundo o autor, está a ser esquecido).

Como mencionei, no penúltimo post falei da falta de interesse pela cultura que vemos nas instituições europeias, e como tal está a contribuir para a destruição do projecto europeu e do ideal de civilização europeia. Mas após a leitura da obra de Riemen, surge a seguinte questão: Como podemos esperar preocupação com a cultura, de líderes que cada vez mais mostram não ter qualquer nobreza de espírito?

Riemen refere-se à nobreza de espírito como “o grande ideal, a realização da verdadeira liberdade, um alicerce moral” como algo essencial à existência da democracia e do mundo livre.

Apesar de concordar com a primeira definição que o autor faz: “a realização da verdadeira liberdade”, não concordo com a segunda, não me parece que a nobreza de espírito seja totalmente essencial à democracia, e a prova disso está na própria Europa, vivemos numa sociedade democrática e livre, e no entanto são raros os líderes políticos nos quais é evidente a nobreza de espírito.

Quando muito podemos afirmar que sem a nobreza de espírito, a democracia começa a enredar por um caminho de decadência, evidenciado hoje pela desconfiança nas instituições europeias e pela descrença no projecto europeu. Uma Europa onde os líderes socialistas ou sociais democratas e democratas cristãos não conseguem responder às exigências do seu tempo e abrem espaço ao populismo e ao regresso da xenofobia e aos desejos de isolacionismo.

Vemos como exemplohollande le pen.png disso a França, país onde nasceu a ideia moderna de liberdade e de república, e que hoje vê uma parte substancial do seu povo virar-se para uma candidata presidencial como Marie Le Pen.
Aí poderemos realmente afirmar que a causa é a falta de nobreza de espírito dos nossos actuais líderes, aí poderei concordar que este ideal é essencial à sobrevivência, a longo prazo, da democracia.

Vemos assim um regresso das ideias de autoritarismo, ou mesmo totalitarismo, às quais o autor se refere no capítulo “A demanda de Thomas Mann”, mas no totalitarismo não existe qualquer nobreza de espírito, existem apenas valores e ideias falsas atrás das quais os ditadores se escondem para atingir o seu verdadeiro objectivo.

Mas se neste regime ditatorial, ou pelo menos autoritário, está também ausente a nobreza de espírito, porque se vê a preferência de parte da população pelos mesmos? Na minha opinião somos também nós próprios, e não apenas os nossos líderes políticos aos quais falta a nobreza de espírito.

É esta falta de nobreza de espírito que leva à nossa conformidade com o status quo, com a aceitação da realidade como inevitável.

Mas é verdade que essa conformidade, e esse medo de mudança é mais evidente ainda nos image-9624-galleryV9-grbd-9624.jpgnossos líderes. É quase possível fazer uma comparação aos anos que precederam a 2ª Guerra Mundial, parece que existe uma política de appeasement, vamos cedendo e cedendo, como a Europa cedeu a Áustria à Alemanha, mas depois veio a Checoslováquia, e depois Memel na Lituânia, e quando Hitler pediu Danzig à Polónia e esta recusou, a Europa finalmente acordou, a Alemanha já tinha construído uma máquina de guerra que causou a destruição da Europa.
(Na imagem à direita vemos Chamberlain, 1º Ministro Britânico na época, a reunir-se com Hitler).

Existe tanto receio de qualquer mudança, que se tentam ignorar os problemas, e fingir que eles não estão a acontecer.

Fingir que a Hungria, país membro da União Europeia, não tem um regime que borda o ditatorial, fingir que a Turquia não se está a transformar também num regime autoritário, fingir que nas próximas eleições a França, país fundador da UE, não poderá ter uma Presidente fascista, fingir que praticamente todos os meses não morrem centenas de pessoas a tentar chegar à Europa, e principalmente fingir que não é necessária qualquer reforma ao modo de funcionamento da União Europeia, e fingir que o projecto Europeu não está a falhar.

A questão é que, na minha opinião, a mudança chega quer nós queiramos ou não, e esta política de appeasement moderno faz com que no momento em que ela  eventualmente e inevitavelmente surgir, nós não estejamos preparados.

E é preciso termos a nobreza de espírito para que possamos identificar que o caminho que está a ser percorrido não é o certo, intervirmos, porque se não o fizermos, pode ser tarde demais. Voltando ao exemplo nazi, existe uma citação bastante conhecido de Martin Niemöller que diz:

“First they came for the Socialists, and I did not speak out79623.jpg
Because I was not a Socialist.

Then they came for the Trade Unionists, and I did not speak out
Because I was not a Trade Unionist.

Then they came for the Jews, and I did not speak out
Because I was not a Jew.

Then they came for me—and there was no one left to speak for me.”

Porque o fascismo não começa como fascismo, começa como populismo, começa com algum líder ou partido que surge como “outsider” do sistema, como alguém que apresenta soluções para os problemas da sociedade, a questão é que não olha a meios para atingir os seus fins (fins estes que podem também ser tão negativos como os meios).

Um exemplo perfeito deste conceito de outsider é o candidato republicano às eleições presidenciais americanas, Donald Trump, que se apresenta como um candidato que não é um político, alguém que não faz parte de um sistema que chama de corrompido e falhado.

E o que devemos também perguntar é de onde surgem todos os apoiantes de candidatos como Trump? Riemen aborda também na sua obra o conceito de Niilismo (uma ideia de pessimismo extremo e descrença na sociedade real), afirmando que:
“Quando milhões acreditam no niilismo é porque os guardiãs da cultura falharam”

E quem é o culpado desta perca da cultura, da ausência da nobreza de espírito e da crença massificada no niilismo? Para mim são, hoje, os meios de comunicação social.EU-Media-Futures-Forum-pic_0.jpg

Não sou fã de quaisquer teorias da conspiração sobre os media e como estes nos tentam controlar, a questão não é essa, a questão é que os meios de comunicação social só se focam praticamente em notícias negativas. Existe até a citação “No news is good news“.

Isto porque o que choca vende, o que é negativo vende, e vemos isso com o exemplo de Donald Trump, os meios de comunicação apresentam sempre os políticos como uma classe corrupta, com a ideia de que “eles são todos iguais”, porque o negativo vende, e apenas para vender contribuíram para a descredibilização de uma classe política e até em parte do regime democrático. Falharam assim as suas funções.

E como se isso não fosse suficiente, depois de descredibilizarem os políticos, dão horas e horas de tempo de antena a um candidato que aparece como o oposto de tudo isso, como um outsider a este sistema político, como alguém que oferece novas soluções (ainda que se forem analisadas todas elas não têm qualquer coerência).

Se os meios de comunicação social cumprissem a sua função de divulgação e manutenção da cultura que define a nossa ideia de civilização, talvez não nos deparássemos com esta situação.

Devemos por isso, segundo Riemen, destacar a importância da cultura para a nossa sociedade, este afirma na sua obra:

“O mundo sempre em mudança exige constantemente novas formas para a revelação da verdade. Outra palavra para essas formas é cultura”.

“A aniquilação da cultura significa aniquilação da verdade”.

“Aniquilar a verdade é privar o indivíduo da sua dignidade”.

E se não alterarmos esta maneira de ser, se não voltarmos a dar à cultura e à nobreza de espírito o seu lugar de destaque, não será possível a evolução da nossa ideia de civilização, ou pior, esta evoluirá para o populismo e para o autoritarismo. Como vemos na obra do autor: “Numa democracia que não respeita a vida intelectual nem é guiada por ela, a demagogia tem rédea livre”.

Existe ainda outro ponto da obra com o qual concordo bastante, além da importância da nobreza de espírito (como o carácter e o conhecimento devem ser mais importantes que o dinheiro ou estatuto social) e da própria cultura. Concordo também com a ideia de que
“(…) o melhor Estado é aquele que garante a dignidade humana a todos os cidadãos (…)” e que “A base de todas as formas de civilização é o conceito de que a humanidade alcança a dignidade (…)”.

E cabe aos políticos a garantia desta noção de Estado, um Estado baseado no humanismo e na dignidade humana, uma função que só pode ser cumprida com a existência da cultura e da nobreza de espírito, cuja manutenção, ainda que da responsabilidade dos intelectuais e meios de comunicação (para a sua difusão), deve ser assegurada pelos políticos através das seus programas de governo.

E as dificuldades económicos não são desculpa para não o fazer, Winston Churchill, aquando da proposta de cortes no orçamento da cultura britânico, durante a 2ª Guerra Mundial, recusou, afirmando “Then what are we fighting for?”.

Surge por fim outra questão, qual é então a responsável por esta estagnação na evolução da nossa ideia de civilização? A falta de cultura, ou a falta de nobreza de espírito?

A conclusão que tirei é que serão as duas, porque a falta de cultura provém de uma falta de nobreza de espírito, e com a perda da cultura, perdem-se os valores que nos regem (como a nobreza de espírito), perde-se o ideal de civilização europeia, o projecto europeu, e a própria democracia.

A solução será então, na minha opinião, voltar a dar importância à cultura, deixarmos de nos concentrarmos apenas no aspecto financeiro e economicista. Para que através do “regresso” da cultura, voltemos a ter nobreza de espírito, uma nobreza que nos permita defender sempre a dignidade humana e a liberdade que tantos anos demorou a ser conquistada.

(Outra questão interessante, a ser analisada numa outra altura, é a maneira cíclica como esta estagnação do ideal de civilização se sucede. Parece que cometemos os mesmos erros vezes e vezes sem conta, conduzindo as nossas sociedades a crises tão graves que levam a regimes autoritários e a guerras que finalmente restauram a democracia.)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s