A responsabilidade Política e Social das organizações

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Hoje vemos cada vez mais um domínio financeiro em todos os sectores, apresentando o lucro como essencial e superior a todos os outros aspectos da nossa sociedade.

Quando olhamos para as várias organizações vemos também esta tendência, observamos o desaparecimento da dimensão moral e política das empresas, e a obsessão pelo lucro.

Philippe de Woot fala na sua obra, “Rethinking the entreprise” sobre precisamente este rethinkingfinalhi-96343-800x600.jpgassunto, sobre como é necessário repensar o propósito das organizações numa sociedade cada vez mais globalizada e onde o poder de inovação está cada vez mais dependente destas mesmas organizações.Afirmando que “se a empresa quer reencontrar a sua dimensão cidadã, deve desenvolver uma cultura política”. Deve inserir a sua actividade na vida da sociedade onde se insere e deve participar nos debates sobre o bem comum.

No último post falei da “Ideia de Europa” que cada vez mais é posta em causa devido, entre outras razões, à fixação sobre o sector financeiro, e quando olhamos para as organizações, a situação é idêntica.

Na minha opinião, as organizações, e os próprios governos (em alguns casos) fixam-se na noção de rentabilidade, quando se deveriam preocupar com a sustentabilidade. E quando se preocupam com a primeira, acabam por prejudicar a última.

O lucro é procurado a todo o custo, pondo em causa a qualidade do trabalho dos funcionários, e ignorando os custos ambientais e sociais que certas medidas podem ter. Vemos isso quando nos lembramos da promessa do anterior governo de Passos Coelho que queria que Portugal fosse um dos países com maior competitividade do mundo, esquecendo o facto de que os países mais competitivos assentam essa “qualidade” em trabalho precário e ignorando os custos ambientais dos seus métodos de produção.

É um facto que o modelo de economia de mercado no qual se baseia a nossa sociedade tem-se mostrado bastante útil, proporcionando um crescimento económico nunca antes visto. Mas foi um modelo que surgiu depois da 2ª Guerra Mundial, e que não se baseava apenas no desenvolvimento económico, mas num desenvolvimento económico equilibrado com o respeito pela dignidade da vida humana, procurando sempre conciliar a ideia de Estado Social com o crescimento económico.

Mas a verdade é que a sociedade de hoje é cada vez mais globalizada, e com essa globalização o conceito de economia de mercado expande-se para uma dimensão internacional, onde existe um vácuo de governação e regulação, conduzindo as organizações a uma posição de liderança, à qual vem associada uma responsabilidade muitas vezes ignorada. Tal como de Woot afirma: “(…) Unregulated globalisation is today beggining to show its limitations and dangers”. Ou seja, sem a presença da política, a economia de mercado perdeu a sua dimensão social.

Devemos também questionar o porquê deste vácuo de regulação, de Woot afirma que se deve à dificuldade da política em acompanhar com sucesso a velocidade da globalização, transferindo assim a sua responsabilidade para as organizações, que segundo o autor estão entre as poucos organizações que conseguiram acompanhar com sucesso todos os aspectos da globalização.

Ora se as organizações se fixam apenas no lucro e na sua rentabilidade, ignorando as necessidades dos seus stakeholders e focando-se apenas na distribuição de rendimentos pelos seus shareholders, estão realmente a ignorar a sua responsabilidade social e política, e estão a perder a sua dimensão cidadã. Não só se prejudicando a elas próprias mas também, devido a esta nova posição de liderança, a própria sociedade onde se inserem.

No entanto vemos também um esquecimento dos valores morais nas próprias instituições políticas, e a União Europeia é prova disso mesmo, o vácuo de liderança política e a importância de instituições como o ECOFIN mostram a fixação no desenvolvimento económico e o desleixo pelos aspectos morais e políticos do projecto europeu.

Como é possível que a UE dê mais importância à fiscalização financeira de um défice orçamental do que à vida de centenas de milhares de pessoas que procuram asilo político na Europa?

E este “esquecimento” é também referido por de Woot, que atribui o vácuo ético à ideologia neoliberal que se verifica em tantos governos europeus, e que assume como essencial a supremacia dos mercados financeiros e a pouca intervenção / regulação governamental.

Afirmando mesmo que a economia de mercado, tão útil no passado, está a ser transformada de modelo económico a “ideologia simplista”, removendo as dimensões ética e política da economia e preocupando-se apenas com o aspecto financeiro.

No entanto não concordo com a ideia de que devemos simplesmente aceitar que as corporações são agora os grandes agentes do progresso e que, por conseguirem acompanhar a globalização melhor que a política devem ser encaradas como as instituições que “lideram” o progresso da sociedade.

Deve procurar-se antes encontrar realmente a razão deste “atraso” por parte das instituições políticas e procurar resolvê-lo, de modo a que o poder político possa regular à escala mundial o sector financeiro e económico.

(Neste aspecto concordo com o autor que “culpa” as políticas neoliberais, afirmando que estas destruíram, ou estão a destruir, o equilíbrio social e a interromper o ciclo de crescimento harmonioso que surgiu na 2ª metade do século XX, criando desconfiança e falta de interesse e participação na política por parte dos cidadãos).

E apesar de não concordar com a aceitação desta realidade como permanente, concordo que devemos aceitá-la como real e lidar com ela. Sendo verdade que as empresas estão hoje numa posição privilegiada, que aumenta a sua influência, é necessário que cumpram as responsabilidades que agora lhes são atribuídas. E para isso é necessário recuperarem a sua dimensão cidadã.

Ora para o fazerem, é essencial que transformem a maneira como funcionam, e pode ser que através desta mudança consigam, não alterar o modelo da economia de mercado, mas adaptá-lo às necessidades da sociedade. Ou mesmo recuperar o modelo de economia de mercado base, que incluía alguma preocupação social.

Assim, devido a estas novas responsabilidades, de Woot considera que “uma organização só tem legitimidade moral e política se se inserir num contexto ético e de procura do bem comum”.

E através de todos os recursos disponíveis às organizações, e da sua enorme capacidade de empreendedorismo e criatividade, estas podem contribuir não só para o seu próprio crescimento económico, mas também para o desenvolvimento económico, social e político da sociedade onde se inserem.

O autor apresenta assim um conjunto de conceitos que podem ajudar a esta adaptação do modelo de economia de mercado, permitindo às empresas uma maior dimensão cívica, tais como:

  • Desenvolvimento sustentável;
  • Entrepreneurship, leadership e statesmanship;
  • Economia circular;
  • Social entrepreneurship;
  • Social innovation;
  • Fair Trade;
  • A ideia de ver as empresas como cidadãs;
  • A dignidade humana como valor organizacional;
  • A importância de uma maior participação política por parte da organização;
  • E ainda a importância que deve ser dada não só aos shareholders, mas também aos stakeholders.

Todos conceitos que se baseiam na ideia de responsabilidade social, ambiental e política. Procurando utilizar os recursos e capacidades organizacionais não só a favor da própria organização, mas sim a favor de toda a sociedade, contribuindo assim para a dimensão cívica da empresa. (Existindo até a ideia de esta capacidade de empreendedorismo e criatividade ser utilizada a favor da “base da pirâmide” social, procurando ajudar aqueles que realmente mais precisam).

A função das Relações Públicas relaciona-se também com esta ideia das novas responsabilidades das organizações, visto que procura sempre criar uma relação mutuamente benéfica entre a organização e os seus stakeholders.

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