A importância da Europa

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Numa Europa que está cada vez mais dividida e que cada vez mais põe em causa o projecto europeu, é importante reflectir sobre a ideia de Europa que tem existido ao longo dos seus vários séculos de história, e na qual nos devemos basear quando tentamos dar continuidade a este projecto europeu.

Na sua obra “A Ideia da Europa”, George Steiner trata precisamente de abordar os problemas que a Europa, e o projecto europeu, enfrentam na actualidade.

Steiner aponta “cinco axiomas” para definir a sua ideia de Europa: os cafés, as paisagens, as ruas (e os seus nomes), a descendência de Atenas e Jerusalém, e a apreensão acerca de um “capítulo derradeiro” que represente o seu fim.

Quando fala sobre os cafés, Steiner refere-se aos espaços de discussão e debate intelectualcorner-cafe-1.jpg que surgiram ao longo dos séculos no continente europeu. Símbolos do conhecimento produzido na Europa: “(…) marcadores essenciais da ideia de Europa (…) Enquanto existirem cafetarias, a ideia de Europa terá conteúdo (…)”.

Acerca das paisagens, este refere-se a elas devido à sua “escala humana”, permitindo a que os cidadãos europeus se consigam deslocar rapidamente e sem grandes obstáculos por todo o continente, partilhando o seu conhecimento e frequentando os já tão conhecidos cafés. Afirmando mesmo que existe uma “Relação essencial entre a humanidade europeia e a sua paisagem”.

Quanto às ruas, Steiner destaca os seus nomes, fazendo uma comparação com os nomes 1422495312360.jpgdas ruas americanas, que apenas se identificam com nomes de árvores ou através de números. Enquanto na Europa todas as ruas, praças ou largos representam uma parte da sua história, tendo o nome de um escritor, filósofo, rei, revolucionário, ou estando identificada com uma placa que relembra qualquer acontecimento de destaque que aí tenha tido lugar.

Fala da descendência de Atenas e Jerusalém, referindo-se, no caso da cidade grega, às raízes que a Europa tem no seu vocabulário, na maneira como se comporta nos seus conflitos políticos e sociais, na sua arquitectura, nos seus modelos estéticos, no seu estudo das ciências naturais, e até mesmo no seu atletismo. E no caso de Jerusalém referindo-se à herança hebraica que tanta importância tem na Europa, seja ela na nossa noção de consciência e direitos morais, ou nas nossas crenças. E mesmo afastando-nos da ideia de religião conseguimos encontrar marcas dessa herança hebraica em vários autores, Steiner refere-se mesmo a Marx, cuja ideia de justiça social se relaciona muito com essa noção de consciência e direitos morais que herdamos de Jerusalém, e na qual poderemos talvez basear também a nossa apreensão acerca desse “capítulo derradeiro” que irá surgir, representando o nosso fim. Segundo Steiner: “A ideia de Europa é na verdade um conto de duas cidades”.atjer.png

Steiner caracteriza assim a sua ideia de Europa, elogiando o continente europeu acerca da sua impressionante capacidade de produzir conhecimento ao longo dos séculos, destacando o papel da cultura nesta capacidade de produção de conhecimento. Fala da importância vital que o mundo da cultura tem para a qualidade da vida humana, o seu papel como “código moral intelectual” e como esta, em conjunto com a arte dão sentido à vida: “(…) Uma sociedade que não cultiva as grandes ideias humanistas, acabará, novamente na violência e na autodestruição (…)”.

Sendo aqui que surge a crítica de Steiner à Europa de hoje. Para este, a Europa do século XX retrocedeu, culturalmente à idade média. E mesmo tendo recuperado depois das duas enormes guerras que enfrentou, e tendo criado o projecto europeu, hoje esse projecto está praticamente esquecido, e reduzido a uma união que é, cada vez mais, apenas económica e financeira.

Steiner refere-se à previsão feita por Max Weber em 1919 de uma “redução à burocracia gestora da vida do espírito europeu”.

Redução essa que é hoje cada vez mais evidente, com a falta de “conexão” entre as instituições europeias e os seus cidadãos, com o vácuo de liderança existente nessas instituições e com a consequente transferência do poder de tomada de decisão para burocratas e tecnocratas não eleitos, fixados apenas no desenvolvimento económico e financeiro, ignorando a necessidade de desenvolvimento da cultura europeia.

Existe ainda outra previsão feita por Weber a que Steiner se refere: a noção de “americanização”. Quando este fala da diferença entre a Europa e a América, dando como exemplo o nome das ruas, este refere-se também a outro elemento de diferenciação, que surgiu durante o século XX, causado pelas guerras dentro do continente europeu: o contraste entre a perspectiva de futuro da América, e a fixação com o passado da Europa.

Uma fixação da qual o próprio fala neste texto, questionando: Como podemos acrescentar algo à imensidade do passado europeu?.

E a verdade é que parece realmente ser difícil conseguir acrescentar conhecimento a um continente que já produziu tanto conhecimento. Parece difícil conseguir desenvolver a cultura dentro de uma união que só se preocupa com défices orçamentais, numa Europa que, século sim século não, enfrenta guerras que a destrói, numa Europa que cada vez mais mostra o seu nacionalismo e xenofobia (já causa de tantas guerras no passado).

Mas se tantos outros já o fizeram antes de nós, em épocas tão mais difíceis do que a nossa, porque não conseguiremos fazê-lo nós?

Se o continente europeu consegui produzir tanto conhecimento ao longo da sua história, desde o império romano, à idade média, enfrentando a inquisição e uma igreja católica que repudiava o conhecimento e desenvolvimento científico, enfrentando inúmeras guerras internas desde a Reconquista da Península Ibérica, às infinitas guerras entre ingleses e franceses, dinamarqueses e suecos, às conquistas de Napoleão e às duas Guerras Mundiais que devastaram o nosso continente, se mesmo enfrentando todos esses obstáculos a Europa conseguiu ser a “capital do conhecimento” no mundo, porque não continuar a sê-lo hoje?

E a verdade é que se não o fizermos, se não nos dedicarmos, mesmo que em parte, ao desenvolvimento da cultura europeia estaremos a desperdiçar todo os esforço que aqueles antes de nós fizeram para a desenvolver, é nosso dever, como afirma Steiner “Preservar, através da cultura, um ideal de civilização que é a ideia de Europa”.

E mesmo enfrentando as dificuldades que a Europa e o projecto europeu enfrentam hoje, devemos ter em conta que somos extremamente privilegiados em relação aos nossos antepassados.

No dia 25 de Abril deste ano, o Presidente Obama discursou numa visita oficial à Alemanha, onde disse:

“(…) that may surprise young people who are watching TV or looking at your phones and it seems like only bad news comes through every day, but consider that it’s been decades since Germany_Obama.JPEG-04ef3_c174-0-5159-2907_s885x516.jpgthe last war between major powers. More people live in democracies. We’re wealthier and healthier and better educated (…) If you had to choose a moment in time to be born, any time in human history, and you didn’t know ahead of time what nationality you were or what gender or what your economic status might be, you’d choose today (…)”

 

Mas é verdade que enfrentamos também alguns desafios. Steiner cita no seu texto, Husserl, afirmando que “A Europa designa a unidade de uma vida espiritual e uma actividade criativa” e que esta se “Esquece de si própria quando se esquece de que nasceu da ideia da razão e do espírito da filosofia”.

E hoje verificamos que existe realmente esse esquecimento, e não apenas acerca da produção de conhecimento e da cultura, mas também acerca do próprio significado do projecto europeu.

Um esquecimento do ideal de vida europeu que foi pensado pelos “pais fundadores” da União Europeia, um ideal baseado (no conhecimento e na cultura, mas também) na manutenção da paz, num Estado-Social forte que garantisse uma qualidade de vida mínima para todos, e onde esta dupla segurança permitisse o crescimento económico, não uma união onde o crescimento económico é a prioridade, sacrificando a qualidade de vida dos cidadãos.

Hoje enfrentamos uma realidade diferente onde a cultura e o conhecimento não são prioridade, veja-se o exemplo do anterior governo português, liderado por Pedro Passos Coelho, que extinguiu o Ministério da Cultura e cortou os subsídios e apoios sociais à população.

Mas a passagem por um período mais negro não quer dizer que seja para sempre impossível tão difícil lutar pelo projecto europeu e hoje vemos já algumas mudanças que podem representar um “virar de página na Europa”, voltando ao exemplo português, onde o novo governo liderado por António Costa volta a ter um Ministério da Cultura, e que tem reposto os subsídios e apoios sociais à população.

E uma União Europeia que já começa a mudar um pouco o seu discurso, através por exemplo do novo Presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker (que substituiu Durão Barroso  ironicamente o autor do prefácio desta obra sobre a ideia de Europa quando nada fez para a preservar).

Enfrentamos também o desafio da globalização, a Europa é rica em conhecimento e cultura devido às várias culturas de cada país, e a globalização pode pôr isso em causa, Steiner afirma “O génio da Europa é a diversidade linguística, cultural e social”. Pondo-se por isso a questão de como conciliar esta manutenção da diversidade ao mesmo tempo que lutamos por uma maior integração e união europeia.

Mas em vez de essa necessidade de diversidade ser utilizada como pretexto para os nacionalismos, devemos olhar para ela como uma oportunidade. É um facto que a globalização existe, e tal como a UE se junta economicamente e financeiramente para competir com super potências como os EUA  e a China, deve também juntar-se culturalmente para conseguir manter o seu papel de “líder” cultural no mundo.

Porque não é por a partir de agora se criar cultura num contexto mais europeu que vai desaparecer o conhecimento do passado, e a diversidade linguística, cultural e social de cada país, pelo contrário, a melhor maneira de preservar essa diversidade cultural é através da integração europeia. Porque um país por si só dificilmente conseguirá, num mundo globalizado, manter e destacar a sua cultura, mas se fizer parte de um projecto europeu que tem a preservação e desenvolvimento do conhecimento e da cultura como um dos seus principais objectivos, conseguirá fazê-lo.

Recentemente, Chantal Mouffe, filósofa política contemporânea, deu uma entrevista ao jornal i, ainda que não concorde com muito do que disse, existe uma passagem onde falou sobre a actualidade europeia, com a qual concordo:

“Há quem defenda que é impossível mudar a Europa porque ela é um projeto neoliberal que foi criado para isso. Não estou de acordo. Acho que é possível transformar esta UE. A minha Chantal_Mouffe_2013.jpgposição é que não há alternativa à União Europeia; a opção soberanista e nacional, na globalização, é impossível e irrealista. Eu sei que é complicado imaginar e criar uma outra Europa, mas não há outra possibilidade. Não vejo como nos dias de hoje, em tempos de globalização, um país pudesse ter uma política independente. Estamos todos no mesmo barco, é preciso que lutemos juntos.”

Finalmente, quando Steiner afirma que “É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que a vida não reflectida não é efectivamente digna de ser vivida” podemos concluir que é da responsabilidade dos cidadãos europeus, quer devido à sua história, quer devido às melhores condições que estes têm em relação a grande parte do mundo, ter a capacidade de reflectir, criar conhecimento e preservar o ideal de civilização que é a ideia de Europa.

Um ideal de civilização que se baseia no conhecimento e na cultura, e que tem sido esquecido. Tal como depois da idade média, um período negro para o pensamento europeu, surgiu o Renascimento, será talvez necessário um “novo Renascimento europeu”, como afirma Steiner, de modo a garantir a preservação deste ideal de civilização e de modo a salvar o projecto europeu.

 

 

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