A geração dos ecrãs

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Hoje verificamos que as gerações mais jovens convivem diariamente com ecrãs, principalmente smartphones, mas também tablets e computadores.

O texto de Michel Serres: “Pequena Polegar” apresenta uma perspectiva interessante sobre esta mesma geração.

Michel Serres começa por se referir a esta geração dos ecrãs, como uma geração que já não habita a mesma Terra que os seus pais ou avós, que tem uma relação completamente diferente com o mundo.

Uma geração que tem o seu trabalho facilitado pelo uso da tecnologia (Michel Serres afirma mesmo que o computador e a internet quase se tornaram numa extensão do nosso corpo, servindo de memória externa para o nosso conhecimento) e para a qual é mais fácil aceder à informação, é mais fácil comunicar e isso contribui para uma maior tolerância entre culturas, porque cada vez mais se vê como cidadã do mundo, e não apenas do seu país ou cidade.

Uma geração para a qual o ensino tradicional se torna cada vez mais enfadonho e de utilidade pouco perceptível, não porque não quer aprender, mas sim pela maneira como é ensinada.

Como Michel Serres diz: “(…) e eles estão a instituir reformas utilizando modelos que já há muito foram ultrapassados.” (página 13).

Se precisamos de aprender como se faz alguma coisa, é muito mais fácil abrir o Google ou o Youtube e pesquisá-lo, encontrando um tutorial que nos ensina mais rapidamente e melhor do que grande parte dos professores. E a razão disso não é a falta de conhecimento dos professores, mas sim a falta de inovação nos seus métodos de ensino, e não chega apenas tentar incluir as novas tecnologias nas salas de aula, é necessário mudar mesmo o método de ensinar, e também o método de avaliar.

Ao ler o texto de Michel Serres, torna-se evidente que esta geração já não aceita ficar sentada numa sala de aula à espera do conhecimento, tem a necessidade de o procurar activamente. Já não tem uma atitude passiva de aceitar o que lhe é dito que tem de aprender.

É uma geração que só terá interesse em aprender o que realmente lhe interessa, e através dos métodos que preferir: “Supply without demand is now dead“.

E o conhecimento que nós procuramos acerca de muita coisa já está disponível através de outros meios mais rápidos e eficientes, o que nos leva a tomar menos atenção aos que se apresentam como especialistas na matéria.

O conhecimento já não está concentrado nos professores ou nos especialistas, está distribuído por todos e por todo o lado. Se antes era necessário ir a uma biblioteca para estudar sobre um assunto, hoje é apenas necessário pegar no nosso telemóvel.

Michel Serres afirma mesmo que “É o fim da era dos decision-makers” (página 36).

Muitas vezes esta geração é criticada pela anterior, por parecer sempre distraída, por parecer que não presta atenção, ou por ter um attention span muito reduzido.

A verdade é que a nossa tolerância para esperar é muito reduzida, Michel Serres fala mesmo do tempo de duração de imagens e do tempo de resposta utilizado nos Media, que é cada vez mais reduzido. E é também verdade que a internet e as redes sociais nos trouxeram um sentimento de gratificação instantânea.

Mas o que é preciso entender é que esse fraco attention span, e essa pequena tolerância que temos não é sinónimo de falta de compreensão ou falta de interesse, pelo contrário, é próprio de uma geração que poderá procurar encontrar soluções rápidas e eficientes.

Michel Serres afirma: “A linguagem mudou, e o trabalho transformou-se” (página 22).

E o próprio Michel Serres afirma no início do texto, mesmo que não seja em tom de crítica, que esta é uma geração que prefere ser ensinada pelos media, e que é formatada pelos media e pela publicidade.

Afirmando ainda que “Estes jovens habitam o virtual. As ciências cognitivas já evidenciaram que utilizar a internet (…) não estimula os mesmos neurónios do que o uso de um livro. (…) eles podem manipular vários tipos de informação ao mesmo tempo, mas não a entendem, integram ou sintetizam como nós, os seus antepassados” (página 20).

O que pode em parte ser verdade, mas continuamos a entendê-la e a integrá-la, apenas de maneira diferente do que os nossos pais ou avós o faziam.

Michel Serres coloca ainda a questão de como poderá esta geração ter capacidade de entender a literatura e a história quando a nossa experiência de vida é hoje tão diferente. Mas devemos ter em conta que as experiências de vida têm vindo a alterar-se sempre ao longo dos séculos, este século é a internet como no anterior foi a televisão e o rádio, como antes foram os jornais.

O que penso ser importante entender é que não é pela mudança nos meios de distribuição, e nos meios de acesso à informação que esta passa a ser ignorada e mal compreendida, 13f4c1bpelo contrário, os meios actuais de acesso à informação possibilitam a que qualquer pessoa com acesso à internet ter acesso a uma quantidade de conhecimento virtualmente infinita, o que nunca poderia acontecer no passado.

(Apesar de ser importante mencionar que nem toda a informação disponível online é informação de qualidade, e se a facilidade de acesso à informação aumentou, também aumentou a facilidade de produção de falsa informação e conhecimento errado, que devemos ter em conta).

Outro tema interessante acerca da critica a esta geração por parte das anteriores é a razão pela qual é como é, Michel Serres faz também referência a isso, afirmando que “se esta geração é egoísta, poderá ser porque a anterior a ensinou a ser”, e se vivemos num mundo globalizado, poderá ser porque as gerações anteriores trabalharam e contribuíram para a globalização e para a facilitação da comunicação e partilha da informação.

E quando olhamos para a sociedade em geral, esta nova geração também se destaca, é uma sociedade onde o espaço de comunicação foi diluído, onde a comunicação se verifica a toda a hora e em todo o lado.

É uma nova sociedade onde o sentimento de globalização é cada vez mais comum, mas onde o individualismo sobressai cada vez mais. images.jpgJá não existe uma noção de “público geral” ao qual possa ser transmitida a mesma informação.

Já não somos vistos como todos iguais em termos de interesses e de crenças, e a comunicação feita pelas empresas começa a reflectir isso mesmo.

Como exemplo dessa mudança temos os anúncios online da Google, que são personalizados consoante o utilizador e consoante as pesquisas que estes fazem na internet. Tal como existe a noção de Micro-Marketing, começa cada vez mais a existir a necessidade de uma Micro-Comunicação, em que o conteúdo das mensagens não seja “personalizado”  a públicos gerais, ou mesmo a públicos alvo, mas sim a públicos individuais.

Porque cada pessoa tem hoje o poder de se fazer ouvir, e por isso merece uma mensagem personalizada por parte das organizações.

Michel Serres afirma no seu texto que: “Pela primeira vez na história, a voz de quase toda a gente pode ser ouvida”.

E estes públicos individuais têm também de ser percepcionados de maneira diferente por parte das organizações, tendo em conta o fácil acesso à informação e ao conhecimento que estes têm através da tecnologia. “Passa a existir (por parte das organizações, em relação aos indivíduos) uma presunção de competência, em vez de uma presunção de incompetência” (página 62).

É uma geração onde o indivíduo passou a deter tanta informação e tanto decision-making-power como as grandes organizações, e isso deve ser levado em conta na comunicação das mesmas.

É por isso que nas Relações Públicas todas estas mudanças devem também ser tidas em conta.

 

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