Agenda-Setting na Política

agenda-settingO conceito de Agenda-Setting consiste na capacidade dos órgãos de comunicação social conseguirem influenciar a importância ou o destaque de certos assuntos na agenda pública.

Ou seja, se um, ou vários órgãos de comunicação social derem mais importância a um tópico ou notícia em particular, ou se o abordarem mais frequentemente do que outros, tal terá um efeito de agenda-setting junto do público, que pensará que o assunto tem uma maior importância do que realmente tem, devido aos meios de comunicação social.

Existem assim várias questões que podemos colocar, partindo do conceito e da práctica do agenda-setting pelos meios de comunicação social.

Em primeiro lugar, se ele realmente existe. É certo que os órgãos de comunicação dão maior destaque a certos tópicos e a certas notícias, mas esse destaque pode existir apenas porque esses tópicos são já de grande importância para o público (no entanto aqui surgem mais duas questões: como podemos saber o que é o interesse público, e quem pode tomar essa decisão).

Em segundo lugar devemos questionar-nos se, ao existir, o agenda-setting é intencional. Ou seja, mesmo que os meios de comunicação social dêm mais importância a certos tópicos do que outros, essa diferenciação é intencional? Ou existem já um conjunto de temas aos quais damos automaticamente mais importância do que outros, e de onde vem essa ideia pre-concebida de que alguns assuntos devem preocupar mais a opinião pública do que outros?
Por exemplo, se perguntar-mos a um estranho que encontramos na rua qual o assunto que este considera mais importante: as finanças públicas ou os direitos animais, quase certamente que este irá responder as finanças públicas, mas esta ideia existe devido ao agenda-setting ou por outras razões?

Em terceiro lugar devemos também pensar se, sendo o agenda-setting intencional, qual é o objectivo dos meios de comunicação social em dar mais destaque a certos tópicos, ou a dar mais destaque a certas perspectivas de uma situação do que outras. Qual é a motivação do meio de comunicação social?
Será apenas a opinião pessoal de um ou vários indivíduos responsáveis pelo mesmo, será a defesa de interesses do grupo económico proprietário do órgão de comunicação social, ou será a proximidade ideológica desses mesmos proprietários ou directores de informação a um partido político.

E ainda se o agenda-setting determina apenas os assuntos que o público considera importante, ou se determina mesmo a opinião do público sobre esses assuntos. Ou seja, se o agenda-setting consiste não só na escolha dos assuntos que são apresentados pela comunicação social (e a importância que lhes é dada) mas também a maneira como estes assuntos são tratados, que pode levar à formação imediata de uma opinião por parte do público.

Estas são quatro questões, entre muitas outras que poderiam ser colocadas, sobre a existência e a motivação da práctica daquilo que entendemos como agenda-setting.

Mas procuro também responder a uma questão sobre o seu efeito (assumindo que ele existe).

Interessando-me particularmente pela comunicação política, acho importante questionar se o agenda-setting tem, além do efeito de “manipulação” do que é entendido como importante pela opinião pública, também um efeito de condicionamento sobre o que é discutido pelos órgãos de poder e pelas instituições políticas.

Ou seja, até que ponto é que o agenda-setting condiciona a discussão e o processo de comunicação no espaço político.

Por exemplo, recentemente um dos tópicos relacionados com a política com maior destaque tem sido a elaboração do Orçamento de Estado de 2017, no entanto algumas medidas têm tido mais destaque do que outras, tais como o imposto ao património imobiliário.

Várias notícias sobre a “apresentação” deste imposto surgiram após a deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, ter falado sobre ele num evento de rentrée política do Partido Socialista no dia 17 de Setembro em Coimbra.

No entanto, a deputada do Bloco de Esquerda falou sobre este assunto, após uma notícia sobre a eventualidade do imposto existir ter sido publicada pelo Jornal de Negócios alguns dias antes.

Ou seja, apesar da atenção dada ao assunto ser justificada com as declarações da deputada Mariana Mortágua (a 17 de Setembro) estas declarações existiram depois da publicação de uma notícia sobre o mesmo tópico dois dias antes (a 15 de Setembro).

 

Levando à seguinte questão: será que toda a atenção que este imposto tem tido, teve como origem esta notícia do Jornal de Negócios? Ou mesmo que a “fonte” da atenção tenha sido a declaração de Mariana Mortágua, será que esta apenas sentiu a necessidade de abordar o assunto após este ter sido tratado numa notícia por um jornal.

São questões como esta que penso ser importante abordar, para conseguir concluir se o agenda-setting realmente condiciona o processo de discussão e comunicação na política.

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