O independente

Nestas últimas semanas tive oportunidade de ler o livro “O Independente – A Máquina de Triturar Políticos” de Filipe Santos Costa e Liliana Valente.

Os autores, dois jornalistas, estiveram envolvidos com o próprio Independente no início da sua carreira jornalística. Hoje Filipe Santos Costa é jornalista do Expresso, e Liliana Valente é fundadora e jornalista do Observador.

É um livro que trata a história de um jornal que marcou uma época na política portuguesa, apresentado-nos vários episódios que nos permitem melhor compreender os envolvidos, especialmente os fundadores Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas.

Talvez o projecto inicial fosse realmente fazer um jornal diferente, e independente, mas Paulo Portas rapidamente deixou de o ser, não sendo parcial para nenhum partido, porque até o CDS criticava, mas parcial para o seu próprio projecto político que começava a construir.

Em vez de apresentar apenas um resumo do livro, achei mais interessante acrescentar a minha opinião sobre alguns temas tratados, focando-me principalmente em três: A origem d’O Independente, os ataques a Cavaco Silva e à direita que impulsionaram o projecto político de Paulo Portas, e como este projecto se desenvolveu até hoje (entre outros).

A Origem d’O Independente

O livro começa por nos apresentar a origem d’O Independente, destacando a importância de Miguel Esteves Cardoso (MEC), que procurava transformar em leitores do jornal, aqueles que votaram nele nas eleições para o Parlamento Europeu, segundo o mesmo um dos objectivos da criação do jornal foi: “Fazer valer um ponto de vista conservador sobre o país e a Europa” (p.29).

Atrair leitores que não estavam satisfeitos quer com a política, quer com a comunicação social em Portugal. E este objectivo de MEC demonstrava a ideologia que este partilhava com Paulo Portas (PP), uma ideologia de direita conservadora e euro-céptica.

É por isso que O Independente nunca foi independente, foi um escape de muita gente )de várias áreas da política) que não estava satisfeita, mas não era independente.

Tinha um design inovador, com grande foco no grafismo, na cor, nas manchetes fortes e no dinamismo das fotografias, inspirando-se em modelos jornalísticos normalmente associados à esquerda.

Mas só isso não chegava para compensar o que o próprio editorial do jornal afirmava ser: “Conservador, Liberal, Patriota (…)” Apesar de também procurar “Colocar a cultura no mesmo patamar da economia e da política (…)”. “Tomará partido por quem tiver razão (…)”.2015-11-05-Miguel-Esteves-Cardoso-Paulo-Portas-redacao-O-Independente

A questão é quem decide quem tem razão? Acredito que MEC e PP se preocupassem com a cultura e lhe quisessem dar destaque, afinal a principal audiência que procuravam atrair para o seu jornal era uma certa “elite” nacional, na qual também se inseriam pessoas de esquerda. E talvez o projecto inicial fosse realmente fazer um jornal diferente, e independente, mas Paulo Portas rapidamente deixou de o ser, não sendo parcial para nenhum partido, porque até o CDS criticava, mas parcial para o seu próprio projecto político que começava a construir.

O seu papel foi essencialmente esse: criticar a política. Foi ele que transformou as suas peças n’O Independente, numa ferramenta para o levar ao poder, um poder que tanto criticava nos seus tempos de jornalista.

O ataque à direita e a Cavaco Silva

A questão que me surge é se esse projecto político já existia quando PP decidiu, em conjunto com MEC, criar O Independente, ou se apenas surge como consequência do comportamento da direita portuguesa, tanto criticada por PP, com especial atenção a Cavaco Silva, na altura Primeiro Ministro.

Cavaco Silva, enquanto Primeiro Ministro, esteve 91 vezes presente na capa d’O Independente. Era um dos principais “alvos” do jornal, e principalmente de Paulo Portas, que criticava o social democrata por “enganar o eleitorado de direita”. Para PP, Cavaco aplicava medidas de esquerda. Não acreditava na sua capacidade de gestão e criticava praticamente toda a sua equipa do governo, contribuindo por exemplo para a demissão de Leonor Beleza.

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Mas não era só a política que motivava a ira de PP em relação a Cavaco. Através do livro, dá-se a entender um certo sentimento de “superioridade” sentido por PP em relação a Cavaco Silva, que Portas considerava ter uma personalidade “básica”, não se identificando com a “elite” em que PP se via, e que era considerada a audiência d’O Independente.

Este sentimento de superioridade por parte de PP comprova-se na página 69 do livro, enquanto O Independente comparava de certo modo Cavaco a Salazar, indicando que o seu adn consistia em abuso, autoritarismo e corrupção. Portas surge em defesa do ditador, afirmando que  este: “Porque era superior, convenceu os fiéis. Porque era melhor, bateu os rivais. Porque era torto, eliminou os inimigos“. E tentava destruir a ideia de comparação entre os dois (quer viesse da esquerda ou da direita): “Ligar os dois homens, nas más razões como nas boas, é uma ofensa intelectual para o senhor de Santa Comba. E chega a ser uma injustiça para o senhor de Boliqueime, porque lhe dá proporções que ele não conhece”.
Reforçando novamente a ideia de superioridade que Portas tinha.

Na verdade, o que se entende através do livro é que Portas só por uma vez na vida gostou do PSD, quando o seu líder era Sá Carneiro, e pela história do livro, se este não tivesse 2016-01-06-cavaco_02.jpgmorrido, Portas seria provavelmente hoje militante do PSD.

A ironia é que Portas criticava Cavaco por este ser comparado a Sá Carneiro enquanto grande líder do PSD, mas criticava Cavaco por não ser suficientemente de direita, o que tem alguma ironia porque o PSD de Sá Carneiro era em grande parte centrista. Não é por acaso que a publicação da JSD (dirigida por Paulo Portas na sua altura de militante) se chamava “Pelo Socialismo“.

Não deixando de ser irónico que Sá Carneiro tenha uma vez dito:

“O nosso Povo tem sempre correspondido nas alturas de crise. As elites, as chamadas elites, é que quase sempre o traíram, e nós estamos a ver mais uma vez que o Povo Português foi defraudado da sua boa-fé.”

As elites que Portas tanto tentava agradar, e nas quais se identificava.

No entanto, a verdade é que todos estes ataques, quer especificamente por PP, quer pel’O Independente resultaram. O governo de Cavaco Silva, e o próprio, estavam constantemente sobre pressão.

O Projecto Político de Portas

Assim, quer tenha sido a sua ideia desde o inicio, quer tenha sido um desejo que apenas surgiu quando se deparou com a situação da direita política portuguesa, Paulo Portas começou a desenhar e a construir o seu projecto político.

Já na altura, Portas teve um momento “irrevogável”, PP tinha tido um cargo político de pequena dimensão na década de 80, e tinha jurado nunca mais voltar a cargos de governo. Quando surgiu a notícia de que Manuel Monteiro o convidara para ser cabeça de lista pelo CDS, Portas negou, afirmando que não tencionava sair d’O Independente por nada, mas foi o que fez dois anos depois.

Tornou-se um deputado da Assembleia da República, os quais tanto tinha criticado, encabeçou a lista do CDS para as eleições europeias, o Paulo Portas que tanto criticava a Europa. E lançou o seu projecto político dentro do CDS, eventualmente chegando à liderança, e deixando a sua marca no partido, nem que esta seja só o ter acrescentado as siglas (PP – Partido Popular) ao nome do partido, que por coincidência são também as suas iniciais.

O ódio de Portas a Marcelo

Antes de terminar o post, tenho também de falar do episódio de Paulo Portas com Marcelo Rebelo de Sousa, que ficou conhecido pela Vichyssoise de morango.

Quando Marcelo Rebelo de Sousa concorreu à CML, a candidatura agradou a Paulo Portas, ainda n’O Independente, porque como Marcelo representava uma corrente alternativa dentro do PSD, a aceitação do partido da sua candidatura a Lisboa, representava uma derrota para Cavaco, o alvo preferido de Portas e do seu jornal.19092349_eG5K6.jpeg

No entanto esta afeição de Portas com Marcelo acabou rapidamente, Marcelo foi jantar à residência oficial do Presidente da República e combinou com Portas encontrar-se com ele de seguida, para lhe contar tudo o que tinha acontecido, servindo de “fonte jornalística”. Ora Marcelo mente a Portas, sobre o conteúdo da reunião, sobre os presentes, e até sobre a própria ementa (daí a Vichyssoise de morango). Sendo esta última que levou Portas a descobrir a mentira quando falou sobre ela com um dos outros supostos participantes no jantar.

Este ódio de Portas a Marcelo perdurou, e mesmo quando se previa que os dois pudessem liderar uma coligação (que acabou por falhar), Portas afirma  sobre Marcelo:

(…) Costumo dizer que ele é filho de Deus e do Diabo. Deus deu-lhe a inteligência e o Diabo deu-lhe a maldade”(…)”

Um ódio que provavelmente dura até hoje, não deixando por isso de ser interessante que  Paulo Portas vá preencher o lugar de Marcelo enquanto comentador semanal na TVI, quem sabe preparando também uma candidatura presidencial, e quem sabe se não contra o próprio Marcelo Rebelo de Sousa, quando este estiver a lutar pela reeleição.

Em Conclusão

Gostei bastante de ler este livro, permite entender a origem de um dos jornais mais emblemáticos que já existiram em Portugal, que por razões boas ou más. Assim como sobre os seus fundadores, aqueles que contribuíram para a sua criação, e até aqueles que foram vítimas das tais manchetes e títulos apelativoso-independente.jpg

Tentei focar este post nos assuntos e histórias políticas retratadas no livro, sendo que é sobre isso que o blog trata.

Recomendo vivamente a leitura do livro a qualquer pessoa que queira não só aprender sobre o jornal, mas sobre a ascensão política de Paulo Portas e como esta provocou uma completa mudança no CDS (PP), que deixou de ser um partido centrista, para ser um partido de direita (e bastante direita), seguindo a ideologia que sempre foi defendida por Portas (e em alguns aspectos por Miguel Esteves Cardoso) quando estes decidiram fundar O Independente.

 

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